IMPRENSA SANGRENTA
O Jornalismo Sanguinário
(bloody media)
“A exploração da violência amplia essa mesma violência”.
Lucio Flávio Pinto
A violência e os crimes nunca tomaram tanto espaço na imprensa como nestes últimos dias. Nestes meios informativos regados à sangue o jornalista, com ou sem diploma, tem igualmente de ser sanguinário, destacando em seu noticiário os casos de homicídios hediondos. O repórter deste setor funéreo prefere chegar à acena do crime quando o sangue ainda estiver escorrendo. Cadáver frio não serve.
A imprensa sangrenta vive da desgraça alheia em fotos ampliadas, já dizia Sérgio Porto. Ele observou que o repórter de polícia, sem notícia, fica na redação telefonando para as delegacias ou para os hospitais, perdão, para os “nosocômios”. Sempre tem um “cupincha” que passa a dica. “Alô, é do Quinto? Alguma novidade? O quê? Traficantes? Oba! Vou já para aí”. Ou então é pro pronto-socorro: “Alô. Como? Atropelamento? Ah… mas sem fratura exposta não dá”.
Os informes policiais, da TV e do jornal, deveriam se chamar “criminais” e o título não deveria ser “Polícia” e sim “Crimes”.
Nos programas da TV, ao “vender” uma história envolta em muito sangue e tristeza, o narrador se entusiasma alegremente, mas finge que está chocado e até faz cara de choro.
Nos jornais, até a bem pouco tempo, crescia a proliferação de fotos onde os corpos eram vistos esquartejados, os crânios esmagados, os membros espalhados no chão e muito sangue escorrendo na sarjeta. Não existia texto sem que as fotos chocantes façam parte do conteúdo. Aos poucos o controle foi sendo feito pelo próprio leitor, depois pela Justiça lembrando o caso de Belém envolvendo os jornais “O Liberal”, “Diário do Pará” e o tablóide “Amazônia”.
A Justiça colocou freio a uma prática macabra em decisão tomada no mês de maio de 2009 pela 4ª Câmara Cível Isolada do Tribunal de Justiça do Pará. Os desembargadores proibiram os jornais paraenses de publicar fotos ou imagens de pessoas vítimas de acidentes, assassinatos e demais formas de mortes brutais, que ofendam a dignidade humana ou desrespeitem os mortos.
Mediante a ordem judicial as empresas jornalísticas atingidas lançaram ódio sobre a decisão classificando a medida de “censura” que visava abalar o estado democrático de direito.  Para eles a Justiça havia violado a Constituição quando veda a liberdade de imprensa.
A reclamação se estendia ao direito de exibir, em nome da “liberdade de imprensa”, a imagem da cabeça de um esqueleto, a única parte que sobreviveu do corpo de uma moça depois da explosão do carro que ela dirigia. Também a de um corpo retalhado em postas que foi encontrado no meio da rua. E ainda o corpo desfigurado de um criminoso que foi linchado pela população…
Este que ainda é o atual padrão das notícias, embora as fotos tenham sido moderadas, tende a diminuir progressivamente por causa da rejeição popular. Quem ainda reporta essas insanidades perdeu a alma.
O experiente jornalista Lúcio Flávio Pinto denomina esse tipo de imprensa de “predadora”. Declara que “o critério editorial continua a ser o da venda de jornal pela exploração despudorada da violência, que acaba por ser um estímulo aberto à reprodução e ampliação dessa mesma violência”. Ele diz que a imprensa dá um tratamento aos crimes que revela a intenção de beneficiar-se, em escala ampliada, com a continuação da selvageria.
Esta é uma doença terrível, de natureza psíquica, dando margem à especulações psicoterapêuticas sobre os desvios comportamentais do profissional que atua nessa área. Por vezes manifesta dupla personalidade e até três. Porque como jornalista, conscientizado de portar esse distúrbio, poderia atuar em outro setor de maior ajustamento social.
O repórter da imprensa sangrenta, por opção ou por imposição, faz parte de uma engrenagem, não tem autonomia. È “empurrado” para objetivos que são confundir, iludir e enganar em vez de noticiar, informar e esclarecer. Muitas vezes não pode “pedir para sair”, está envolvido demais.
A exploração sádica da fé dos ingênuos, da curiosidade mórbida dos simples e do baixo sentimento do povão causa danos sociais progressivos. Nenhum sindicato, federação ou faculdade de jornalismo ousa debater o assunto.
Para terminar, uma anedota contada por Sérgio Porto. Ele encarnava o indefectível personagem Stanislaw Ponte Preta, que se destacou nas crônicas cariocas por organizar o FEBEAPÁ – Festival de Besteira que Assola o País.
Ele relata que Primo Altamirando, quando trabalhou na crônica sangrenta, se fez notar pela sua indiscutível capacidade profissional para o posto. Um dia, ele telefonou para o secretário do jornal:
— Alô, quem está falando é Mirinho. Olha, manda um fotógrafo aqui na estação de Cordovil, pra fotografar um cara.
— Que é que houve?
— Foi atropelado pelo trem, está todo esmigalhado. Vai dar uma fotografia linda para a primeira página.
— O cadáver está sem cabeça?
— Não.
— Então não vale a pena.
— Não diga isso, chefe. Mande o fotógrafo que, até ele chegar, eu dou jeito de arrancar a cabeça do falecido.
 
PRINCIPAL